“Sinto que estou fazendo o meu primeiro disco, essa é a minha sensação”. É assim que Pitty, de 49 anos, define o processo que deu origem a “Pitty”, seu sexto álbum de inéditas, que chegou às plataformas nesta sexta-feira (16), pela Deck, e também em CD e vinil. Sete anos depois de “Matriz” (2019), a cantora apresenta um trabalho homônimo de 13 faixas que reúne diferentes perspectivas, experiências e sonoridades.
O álbum nasceu depois de um período de pausa, escuta e reorganização. A partir de uma inspiração que, segundo Pitty, não foi racionalizada, as ideias foram surgindo e ela voltou a criar sozinha com o violão, como nos primeiros anos, quando compunha no quarto de casa, em Salvador. Desta vez, porém, o processo foi além das letras e melodias. Em seu próprio estúdio, a cantora experimentou arranjos, criou riffs e pré-produziu demos, construindo a identidade musical das canções antes mesmo de entrar em estúdio para gravá-las.
O primeiro a ouvir as novas criações foi Rafael Ramos, parceiro de longa data e responsável pela produção do álbum ao lado de Pitty. “Quando ela fez as demos, as ideias estavam meio que prontas. O riff estava lá, a batida estava lá, a forma que o refrão crescia, até as quebradas de bateria. Então, muito dessa produção vem dela apresentar uma ideia completa. Não tivemos que passar por nenhuma reformulação, porque realmente, a demo era uma coisa perfeita, já empolgava”, disse o produtor.
Em menos de dois meses, Pitty compôs todas as músicas do álbum, em um processo de criação intenso. Em “Pitty”, o rock continua no centro da linguagem musical da cantora, mas não funciona como fronteira.
Ao longo das 13 faixas, guitarras, riffs e baterias convivem com diferentes ritmos, texturas e possibilidades de movimento. O resultado é um disco que preserva a identidade musical de Pitty enquanto amplia as formas de expressá-la.
A abertura do álbum, “Sobremesa”, primeiro single do projeto, combina um riff de guitarra marcante com um refrão de forte apelo melódico. “Armadura” explora a possibilidade de um rock também dançante e traz uma referência a Clarice Lispector (1920-1977). Já “Desobediente” combina referências melódicas de diferentes tradições musicais com uma batida de hip-hop e o peso do rock.
Felipe Vassão assina a coprodução de “Sobriedade Seletiva” e “Pileque de Poeta”, duas músicas que aproximam as guitarras da pista de dança. “Não à Deriva” também explora essa dimensão de movimento.
Em “Caminhada”, Pitty fala de parceria e sororidade, com versos sobre amparar quem está ao lado quando o corpo fraqueja. “Amiga” incorpora novas camadas de percussão, e “Álbum de Casamento” dialoga com o blues. O repertório se completa com “Madame”, “Prazer”, “Universo”, “Cuidada” e “Nó”.
Mais de duas décadas depois de surgir como uma das vozes que transformaram o rock brasileiro, Pitty ocupa hoje um lugar raro na música brasileira: uma mulher que atravessa gerações com um repertório que segue vivo e cada vez mais relevante, sem perder a inquietação de quem ainda quer criar, experimentar e se mover. É desse encontro entre uma trajetória consolidada e o impulso de continuar descobrindo novos caminhos que nasce “Pitty”.
O disco reúne, assim, diferentes dimensões da cantora: a compositora que começou sozinha com o violão, a roqueira que mantém as guitarras no centro de sua linguagem e a mulher que segue experimentando novas possibilidades. É um disco que carrega sua trajetória, mas encontra sua identidade na artista que Pitty é hoje.
Imagem: Jorge Daux
Texto: Billboard Brasil